É comum, ao conhecermos alguém numa situação qualquer, a pessoa perguntar o que você faz. O saudoso Reyzinho Accioly responderia: “Sucesso!”. Como não tenho a ousadia dele, digo apenas que sou advogado. Se percebo que tem clima, complemento com “mas não vá me odiar só por causa disso”, ciente de que muitos adoram piadas maldosas sobre nós. Quando falo isso, geralmente o interlocutor sorri. Outras vezes não acha graça. Ok, faz parte.
Se a conversa prospera, a próxima pergunta é “qual área?”. Respondo-lhe: “Cível e inventários. Também atuo em processos de desapropriação e servidão”. Alguns levam a prosa adiante e dizem: “Espero nunca precisar”. Também é comum acharem que um advogado só é necessário em situações adversas.
Então respondo: “Vai que o tio Olavo morre e deixa os dois imóveis e a robusta aplicação financeira pra você?”. O interlocutor olha com estranheza e eu, animado, explico.
— Tio Olavo é um personagem meu. É o tio que todo mundo gostaria de ter. Solteirão, era comedido nos gastos e tinha uma boa aposentadoria do serviço público. Seu passatempo era ler os livros da Biblioteca Pública do Paraná. Não era dado a vícios, não tinha automóvel e pouco viajava, mesmo dispondo de recursos para se esbaldar.
Prossigo: — Como não tinha filhos, nem esposa ou ascendentes, o tio Olavo foi alertado por um advogado e fez um testamento beneficiando você, o sobrinho predileto dele. Pois se não fizesse, todo o patrimônio dele ficaria para o poder público.
E arremato: — Pra receber essa herança, é obrigatório fazer o inventário. Viu só? Às vezes é bom precisar de um advogado.
Mais importante do que um tio Olavo é ter por perto um advogado honesto, competente e dedicado. Há vários por aí, que certamente não se veem nas piadas maldosas sobre nós.