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Todos os caminhos me levaram à advocacia 

Eduardo Macedo Mercer

         Meu primeiro estágio na Advocacia foi aos 10 anos. Jamais esqueço a tarde ensolarada em que meu avô materno, o saudoso advogado Lauro Silveira de Macedo, OAB 2.087, entrou em nosso apartamento vindo de uma audiência. Naquela época morávamos no centro cívico, a uma quadra do Palácio da Justiça, sede do Judiciário estadual. Meu avô chegou com os autos de um processo, de capa amarela, e colocou-os na mesa. Fiquei curioso e como nenhum adulto estava olhando, abri os autos e me pus a ler, premido pelo gosto que já possuía pelas palavras. Para minha surpresa comecei a ler a parte dos fatos na petição inicial e entendi a história.

A primeira vez que contratei um advogado foi aos doze. Num fim de tarde, despedi-me dos comparsas e fui para casa. Cheguei e minha mãe disse que estávamos indo à casa dos meus avós maternos. Senti um tom na voz dela mas nada perguntei. Ao chegar lá, soube que a minha casa tinha caído. Acontece que eu e os amigos do prédio tínhamos uma quadrilha especializada em roubar plaquetas com o nome de carros. Belina, Del Rey, Opala e várias outras. Furtávamos as plaquinhas no centro cívico e guardávamos em um esconderijo na garagem do prédio. O zelador traíra encontrou o “mocó” e nos denunciou. Minha mãe ficou horrorizada, nunca a vi com tanta indignação. E se pôs a me dar um sermão na frente do meu avô, aquele do meu estágio aos 10 anos. Vô Lauro se pôs a me defender. Ele disse que aquilo era coisa de criança, que nós estávamos apenas em busca de aventura. Com sua sabedoria e sua serenidade, meu avô tranquilizou minha mãe e livrou a minha cara. Melhor dizendo, conseguiu a suspensão condicional do processo punitivo materno. 

         Minha primeira prova de Direito foi aos quinze. E não foi qualquer matéria, com qualquer professor. Foi direito penal com o rigoroso mestre Mauricio Kuehne. Estava eu na casa do meu avô e advogado particular quando minha saudosa tia Cecília, então nos primeiros anos da Faculdade de Direito de Curitiba (a rigorosa FDC), pediu para eu transcrever duas ou três folhas do caderno de uma colega, pois ela precisava sair. Coloquei-me a realizar a incumbência, e não é que achei interessante o tal do direito penal? Até hoje não sei se a tia Ciça fez isso de caso pensado ou foi uma fatalidade feliz. 

         A derradeira vez em que tive contato prazeroso com o direito antes de entrar na faculdade foi aos dezessete anos e dez meses, quando estudei a legislação de trânsito para tirar a carteira de motorista. 

          Meu ingresso formal no mundo do Direito, finalmente, foi aos dezenove, quando passei no vestibular da FDC. Eu tinha começado e desistido de dois cursos antes, até que fui visitar a agência de publicidade do meu também saudoso tio Sergio Mercer, bacharel em direito e entusiasta desse curso. Ao entrar na agência tive uma epifania: descobri que a publicidade era a profissão que eu buscava. Comuniquei o desejo ao meu tio, que na mesma hora me mandou aprender datilografia, estudar direito e aperfeiçoar o inglês. Indaguei o porquê do curso de Direito. “Porque você vai ter que ler e escrever bastante. Além disso, se o teu projeto publicitário não der certo, você pode fazer concurso para juiz ou promotor“, explicou tio Sérgio, com a concisão típica dos redatores publicitários. 

Já habitante do mundo jurídico, fiz minha primeira sustentação oral aos vinte. Estava no Bar do Peng, na esquina da FDC, em 1992, tomando uma cerveja com o tio Luis, à época também acadêmico da mesma instituição. De conversa em conversa, contei que eu cursava Direito apenas para ter o diploma, pois meu sonho era ser redator publicitário. Tio Luis tentou me demover da ideia. Subi à tribuna imaginária do Peng e fiz uma inflamada defesa oral do Eduardo publicitário. 

Para o tio Luis minha defesa serviu apenas para reforçar sua impressão de que eu deveria advogar. “Como você argumenta bem! Olha isso!”, dizia o tio Luis. Eu seguia defendendo meu sonho publicitário, sem resultado: “Você é um advogado nato, um advogado nato!”, extasiava-se ele. 

A audiência no bar do Peng acabou em acordo. Concluído o curso de direito, trabalhei doze anos como redator publicitário e depois, para alegria do tio Luis e de mim mesmo, comecei a advogar. Já são dezesseis anos servindo a deusa Themis e encontrando satisfação em resolver problemas, em escrever remuneradamente, em ajudar pessoas, em gerar vagas para advogados iniciantes e estagiários em nosso escritório de advocacia.

Tenho seis tios biológicos, dois falecidos. Todos eles começaram a faculdade de Direito. Dois foram advogados, um foi bacharel e três não concluíram. Além dos dois avôs, advogados militantes na capital e no interior do Paraná – um já mencionado, o outro, Laurentino Bittencourt Mercer, OAB/PR 374, foi procurador do estado e advogado da Klabin. Como diz o ditado, o fruto não cai longe do pé. 

Interessante eu achar que não seria advogado, por perceber agora, depois de tantos anos, que todos os caminhos me levariam à advocacia.