Em janeiro de 2025, celebrei 28 anos de minha formatura em Direito. Além de ser a comemoração de um evento fundamental, a data serve de pretexto para lhes relatar um tenebroso pesadelo que tive por muitos anos com certa frequência desde aquela agradável noite em que quase arremessei minha borla pra fora do Teatro Guaíra.
Reconheço não ter sido dos alunos mais aplicados, tanto que precisei de dois semestres adicionais para liquidar todas as disciplinas. Mas o último período foi bastante tranquilo, três matérias, uma delas com apenas uma aula semanal.
Não sei como a UNICURITIBA procede atualmente, mas nos anos 90 a FDC era implacável no controle de frequência. Quem vacilasse, reprovava em faltas sem piedade. Aí começa meu reiterado pesadelo: das minhas três derradeiras disciplinas, na primeira semana faltei a todas. Na segunda semana — as aulas eram à noite, transcorria o rigoroso inverno de 1996… — fui para só uma das aulas. Na terceira semana, finalmente passei a frequentar as duas disciplinas. E assim consegui fazer nas semanas seguintes: assistia às duas aulas e deixava quase intacto o limite de faltas para usar no fim do ano.
Até que lá pela sexta ou sétima semana — em casa, à noite, numa boa, curtindo um blues — me lembrei daquela terceira disciplina, com apenas uma aula semanal, na qual eu nem havia dado o ar da graça.
Positivamente desesperado, calculando já estar reprovado em faltas e consequentemente impedido de me formar, corri para a faculdade, então sediada no calçadão da Senador Alencar Guimarães, esquina com a Emiliano Perneta. Ao transpor a roleta e chegar perto do edital, quando saberia se estava ou não reprovado, eu acordava.
Esse pesadelo me perseguiu por muitos anos, com mais intensidade no período logo após a formatura. Nos últimos anos antes de me livrar dele, aparecia com um pequeno acréscimo: percebo ainda estar no último período e me pergunto se nunca vou conseguir me formar. Então resolvo fazer as contas e concluo: “JESUS AMADO, EU TÔ NA FACULDADE FAZ VINTE ANOS! JÁ PODERIA TER ME FORMADO QUATRO VEZES!!!”. O mais insólito é, numa hora dessas, eu ainda conseguir fazer conta de cabeça.
Certa feita contei meu pesadelo acadêmico em uma mesa multidisciplinar – havia arquitetos, um engenheiro mecânico e uma desenhista industrial. Quase todos informaram também ter esse tipo de pesadelo, mesmo diplomados há muito tempo.