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O derradeiro causo do Jorge Bittencourt

Como homenagear um grande contador de causos em seu velório? Penso que torná-lo coadjuvante de um causo seja uma opção. Vamos a ele.

         A Cida, etilista praticante e moradora de rua, em farrapos e aparentando demência, se aproximou do caixão do advogado Jorge Bittencourt, exemplo de homem cordial, no cemitério municipal de Tibagi. Pôs-se a chorar enquanto acariciava o rosto dele e lamentava. “Você é um homem tão bom, não podia ter morrido”. A família e os amigos mais próximos em volta assistiam à cena com serenidade, sabedores da inofensividade dela.

         “A gente vai sentir tua falta, Ramon”, disse a Cida, depois de beijar o rosto do Jorge várias vezes, segurando-o com as mãos. Acontece que um tal Ramon era velado na capela ao lado. A Kika, ciente do mal entendido e com muito tato, chegou ao lado e disse pra ela, em voz baixa: “A senhora está no velório errado”. Pela cara de espanto, a Cida chegou a ficar sóbria por alguns segundos: “Ah, é?” E deu três passos em direção à saída.

         Mas fez meia-volta, estufou o peito magro e declarou em boa voz: “Ah, eu também vou chorar por ele, sei que era um homem bom.” Voltou à lateral do caixão do Jorge, lacrimejou mais um pouco e foi embora de cabeça erguida, sem perder o rebolado.

         É, minha gente, como vocês puderam notar, Tibagi – essa mistura de Dias Gomes com Jorge Amado – nunca decepciona. Descanse em paz, estimado Alberto Jorge Bittencourt, agora que a Cida permitiu. Sentiremos falta da pessoa que você foi: amigo afável, bom de prosa, valoroso advogado.