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Os índios no fórum

O talentoso advogado Jorge Cardoso Junior se inscreveu como defensor dativo na OAB/PR e uma de suas nomeações foi para defender um indígena residente em Ortigueira, município a cerca de 80 quilômetros de Tibagi, onde Jorge reside.

         Ele chegou a Ortigueira uma hora antes da audiência e se deparou com a tribo inteira em frente ao fórum. Todos vestidos a caráter e pintados, parecia um evento da FUNAI. Só faltaram as danças e o quarup. Algumas índias, com bebês a tiracolo, aproveitaram e levaram cestos e outros artesanatos para vender.

         Antes da audiência, referente a um delito de lesão corporal, o advogado conversou reservadamente com seu cliente, o agressor, instruindo-o a falar o mínimo possível, a respeitar o juiz e o promotor, entre outras orientações.

         Começada a audiência, foi informado que a vítima não falava português, apenas kaingang. O juiz nomeou intérprete o pajé da tribo e dirigia as perguntas a ele, que reperguntava à vítima. Porém, todos na sala perceberam que ele cochichava em português com ela. Contrariado, o juiz indagou se o pajé falava kaingang e ele admitiu que não, pois era nativo de uma tribo que falava tupi, mas fora escolhido pajé dos kaingangs. Quanto à vítima, ela não sabia se expressar em português mas compreendia se lhe falassem devagar.

         No interrogatório do réu tudo corria bem até o juiz perguntar se, como constava no boletim de ocorrência, ele tinha dado um safanão na vítima.

         — Não foi bem um safanão, foi uma bicuda — esclareceu o índio, piorando consideravelmente sua situação e desacorçoando totalmente o doutor Jorge.