A delegacia de Tibagi era cinco estrelas, mas a de Ipiranga não deixava por menos. Décadas atrás, o delegado ipiranguense permitia aos presos de baixa periculosidade irem à frente da delegacia, principalmente nas manhãs ensolaradas de outono e inverno, tomar chimarrão.
Um desses detentos era o Adauto — nome fictício —, ex-funcionário da prefeitura preso por peculato e amigo dos meus primos Pedro, Joaquim e André. Certa vez os primos passaram no armazém, compraram alguns víveres e muita cachaça, e foram pescar.
Antes passaram na frente da delegacia e viram o Adauto. Pararam para cumprimentar o amigo e convidá-lo a pescar, obviamente junto com o delegado ou o escrivão. Adauto explicou que não podiam pescar porque a viatura deles, uma Rural Willys, estava quebrada.
— Levei a viatura ao João Koenig anteontem, rapá, mas pra variar ele tá demorando — disse, referindo-se ao bom, porém enrolado mecânico. —Enquanto isso, nós da delegacia lamentavelmente ficamos a pé.
Sob o sol da manhã, o Adauto mateava na frente da delegacia, de poncho, chapéu e lenço no pescoço. Viu se aproximar o doutor Abel Rebello, juiz de direito recém-chegado à comarca. O fórum ficava perto da casa do juiz e atrás da delegacia, por onde o magistrado obrigatoriamente passava a pé a caminho do trabalho.
Adauto o cumprimentou:
— Bom dia, excelência, como vai? Aceita um chimarrão?
— Agradeço mas tenho muitos afazeres no fórum. Fica para uma outra ocasião. Tenha um bom dia.
Ao entrar no seu gabinete, doutor Abel foi seguido por uma servidora judiciária, que precisava despachar com ele. O magistrado comentou:
— Muito simpático o escrivão, passei por ele agora em frente à delegacia, me cumprimentou e até me ofereceu um mate.
— Um sujeito alto, de poncho, doutor?
Diante da resposta positiva do juiz, ela explicou:
— Não é o escrivão, é o Adauto. É um dos presos de confiança.
O juiz tinha acabado de tomar um gole de água e quase se afogou. Sem saber que aquele gaudério pilchado era um detento, quase chimarreou com ele em plena via pública.
— Vá lá imediatamente e mande recolher todos os presidiários — ordenou à servidora. — Desse jeito, qualquer dia eles vão tomar cerveja e assar costela na calçada. Nada disso, acabou a brincadeira.
Ela chegou à delegacia e disse aos presos:
— O juiz mandou recolher vocês.
— Aaah, que qué isso? Nós?! — indignou-se um dos detentos.
— Todos vocês, já pra dentro. Ninguém mandou oferecer chimarrão pro juiz — disse a servidora.
— Eu só quis ser gentil com esse cara — resmungou o Adauto, antes de voltar pra cela.
Fico imaginando que castigo os presos infligiram ao Adauto. Certamente envolveu a bomba do chimarrão.