Curitiba | Paraná
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O vereador do Pinhão e o governador

Nas eleições de 1982, o impagável vereador do Pinhão Zoraldo Rocha fez mais que podia para ajudar o então senador José Richa a se eleger governador do Paraná. Zoraldo trabalhou dia e noite com a mulher e os filhos, investiu recursos próprios, chegou a vender o carro. O resultado da eleição, por um lado, trouxe muita alegria: Richa se elegeu. Por outro, como se diz no interior, deixou-o com a língua preta, em total ruína financeira.

         Em abril do ano seguinte, logo depois da posse, Zoraldo foi pedir ao governador uma reposição ou um cargo em comissão para alguém de sua família.

         Chegou cedo ao Palácio Iguaçu, em Curitiba, apresentou-se na recepção e ficou na sala de espera no térreo. Alguns minutos depois chega o governador Richa, de óculos escuros e chapéu, e pergunta a Zoraldo quem ele aguardava e qual o assunto da reunião.

         — Eu vim pedir uma ajuda pro governador, eu gastei todo meu dinheiro na eleição dele e agora tô quebrado.

         Percebendo que Zoraldo não o tinha reconhecido, Richa perguntou:

         — E se o governador não puder te ajudar?

         — Aí eu mando esse cara pra puta que pariu.

         — Manda mesmo?

         — Ah, sim, se ele não me ajudar, mando pra puta que o pariu — reiterou, enfático.

         Richa disse oquei e se retirou, avisando que o governador logo o receberia. Mais alguns minutos, vem uma secretária chamar o Zoraldo. Sobem de elevador ao gabinete do governador, que o recebe na presença dessa secretária e mais duas pessoas — certamente sabedoras da conversa ocorrida no térreo.

         — Governador, obrigado por me receber, eu e minha família fizemos campanha para o senhor lá no Pinhão e gastei todo o meu dinheiro. Agora tô com a cincha na virilha, e vim ver se o senhor não pode me compensar, ou quem sabe dar um cargo pra algum familiar meu.

         Zoraldo parecia não perceber que o sujeito de óculos escuros e chapéu com quem ele conversara antes era o próprio governador. Zé Richa perguntou:

         — E se eu não puder te ajudar?

         Zoraldo inclinou o corpo em direção ao governador e disse num tom de voz mais baixo:

         — Aí fica mantido o que a gente acertou lá embaixo.

         Desnecessário dizer que o bocudo ficou sem compensação, cargo ou reposição.